Discurso do Embaixador da União Europeia na República da Guiné-Bissau por ocasião do Dia da Europa, 9 de maio de 2026

Excelentíssimas Senhoras e Excelentíssimos Senhores,
Distintas Autoridades,
Membros da Comunidade Diplomática, Cultural e Económica,
Amigas e Amigos da Europa e da Guiné-Bissau,

 

Hoje celebramos – junto com os Embaixadores dos Estados-membros da UE e como todos vos - o Dia da Europa, o primeiro desde que iniciei as minhas funções de embaixador da União Europeia em setembro do ano passado.
O dia 9 de maio é, para nós europeus, a celebração de um ideal coletivo que transformou a Europa e selou o nosso compromisso comum com a paz e o desenvolvimento. Mas também simboliza a reconciliação e a busca de soluções partilhadas para problemas comuns, e esta lição é universal e interpela a todos aqui presentes: a cooperação regional e internacional, entre Estados e instituições, organizações e cidadãos, é condição necessária para enfrentarmos os desafios do nosso tempo.
Este dia recorda-nos a força das ideias e dos líderes que construíram a Europa moderna: em 1950, Robert Schumann lançou uma proposta revolucionária: “tornar a guerra na Europa não só impensável, mas materialmente impossível”. Essas palavras deram origem a um processo de integração assente nos valores da democracia, respeito pelo Estado de direito, direitos humanos, e solidariedade, que permanecem vigentes e inspiradores.
Outro pai fundador da UE Jean Monnet afirmou "a Europa não se fará de uma só vez, nem numa construção de conjunto: far-se-á através de realizações concretas que criem primeiro uma solidariedade de facto" — um convite a perseverar no trabalho conjunto, dia após dia, pelo bem comum.
Mas a ambição de Schumann e dos fundadores da UE não se limitava ao continente europeu. Se a integração interna servia para tonar a guerra impossível entre os seus membros, a cooperação externa deveria promover estos valores a nível global. Hoje, face a desafios globais existenciais — como as alterações climáticas, que ameaçam ecossistemas e meios de subsistência em todo o planeta– e num panorama internacional complexo, marcado por uma situação de “policrise”, o projeto europeu revela-se mais urgente e atual do que nunca.
O regresso da guerra à Europa, com a agressão da Rússia contra a Ucrânia (que entrou já no seu quinto ano), os conflitos devastadores no Sudão e no Médio Oriente, e a crescente instabilidade em África — como na Guiné-Bissau ou no Sahel — são lembretes de que a paz não é um dado adquirido, mas uma construção diária.
Mas as crises atuais — climática, geopolítica, tecnológica, identitária e de valores — não se resolvem só com exércitos ou sanções. Requerem cidadãos informados, críticos e solidários, capazes de construir pontes onde outros erguem muros. E sublinho aqui a importância do multilateralismo, que é o coração da ação europeia nestes tempos complexos. A União Europeia e os seus Estados-membros trabalham de perto com as Nações Unidas, e as outras organizações, para promover a paz, os direitos humanos e os objetivos de desenvolvimento sustentável.


Excelências,
Minhas Senhoras e meus senhores,


Este ano é um ano de aniversários que nos convida a olhar para o passado, a celebrar o presente e a projetar o futuro.
Aproveito este 9 de maio para trazer a esta cerimónia outras datas importantes que celebramos este ano
Os 50 anos da parceria entre a UNICEF e a Guiné-Bissau e o papel insubstituível das agências multilaterais na proteção das crianças e na promoção de oportunidades para as gerações futuras.
Celebremos também, com especial emoção, o 40.º aniversário do ingresso de Espanha e de Portugal na então Comunidade Económica Europeia — um passo corajoso que transformou sociedades, fortaleceu democracias e aproximou povos. Há quatro décadas abriram-se portas a oportunidades, intercâmbios culturais e laços económicos que hoje reconhecemos como pilares da estabilidade e do progresso europeu. A presença dos Embaixadores de Espanha e de Portugal, como da Franca, entre nós, lembra-nos que a integração é feita de coragem política, visão partilhada e compromisso com o bem comum. Que este marco nos inspire a perseguir, em conjunto, também aqui na Guiné-Bissau, mais inclusão, mais solidariedade e mais futuro para todos.
 O 10.º aniversário do Museu da Escravatura em Cacheu, um espaço de memória fundamental, financiado pela União Europeia, que confronta as feridas do passado e ensina às novas gerações a necessidade de justiça e memória.
 Recordo, com respeito, Amílcar Cabral cuja vida e pensamento permanecem faróis não apenas para os guineenses, mas para todos nós, e que nos recordam que “(…) a nossa revolução nunca será vitoriosa se não conseguirmos a plena participação das mulheres”.
 E em 2026 celebramos também os 50 anos de parceria entre a União Europeia e a Guiné-Bissau.
50 anos em que trabalhámos lado a lado em sectores fundamentais. Com resultados reais, mas ainda aquém do sonho dos nossos fundadores.

Na educação, reabilitámos escolas, construímos salas de aula, formámos professores, e organizámos programas de capacitação técnica, formação profissional e empreendedorismo para jovens. Hoje mais de 70% das crianças guineenses frequentam o ensino básico, mas apenas 30% o completam. Isto não nos pode satisfazer. . A juventude guineense é a maior riqueza e esperança do país, e investir nos jovens é investir na estabilidade, na inovação e no futuro.

Na saúde, financiámos programas de saúde materna e infantil, campanhas de vacinação, projetos de combate ao paludismo, telemedicina e o reforçámos os centros de saúde. Fizemo-lo em estreita coordenação com as autoridades nacionais e parceiros multilaterais; porque a saúde não é um luxo, é um direito.

Os sectores sociais, e o investimento no capital humano são importantes, mas só serão verdadeiramente concretizados quando a Guiné-Bissau explorar o seu potencial económico, e este tem sido um dos nossos maiores desafios:

No desenvolvimento rural e agricultura, fortalecemos a resiliência climática, e queremos caminhar para assegurar a segurança alimentar: investimos nas cadeias de valor do arroz, fruta, caju e peixe para melhorar o rendimento dos produtores e potenciar este sector central para a economia guineense.

A União Europeia está hoje a apoiar alguns dos investimentos mais estruturantes para a Guiné-Bissau, através da estratégia Global Gateway, que promove infraestruturas sustentáveis, resilientes e de qualidade, capazes de gerar crescimento económico, emprego e integração regional.
A reabilitação e alargamento da estrada Safim–M’Pack e a construção da estrada Quebo-Boké, integradas no Corredor Multimodal Praia-Dakar-Abidjan, vão reforçar a conectividade regional, facilitar o comércio, reduzir custos de transporte e aproximar populações, mercados e oportunidades. Porque a integração regional não é uma abstração. É uma estrada. É um mercado maior. É uma oportunidade concreta que facilita trocas comerciais e gera oportunidades económicas para as populações.
Estamos igualmente a investir na transição energética e na conectividade sustentável, apoiando reformas no sector da eletricidade, energias renováveis e melhores serviços públicos, apoiados numa infraestrutura digital. A central solar de Bolama, é um exemplo concreto: energia mais limpa e mais fiável para mais de 5000 pessoas ao serviço da população, melhorando as condições de vida e as oportunidades económicas locais.
Nas cidades, trabalhamos para melhorar o acesso à água e ao saneamento, e promover uma gestão urbana sustentável. Queremos cidades mais verdes, inclusivas e resilientes, geridas de forma transparente, com mais e melhores serviços essenciais e com qualidade de vida para as populações. Porque o desenvolvimento sustentável se constrói nos bairros, nas comunidades e nas famílias. Aproveito para agradecer a UN-Habitat e a todos os parceiros que implementam o programa Cidades verdes e inclusivas nomeadamente ACCRA, TESE e o Instituto Marques Valle Flores (IMVF).
Nas pescas, temos a terceira maior cooperação pesqueira do mundo, com um valor de 100 Milhões de euro; não é pouco. Trabalhamos para conciliar benefícios económicos com sustentabilidade ambiental, e proteger os recursos marinhos que sustentam as comunidades costeiras. Protegê-los é proteger o futuro.
Por fim, há dimensões que nunca podem ficar em segundo plano: a proteção do ambiente, os direitos humanos, a boa governação, a dignidade.
Estamos a caminhar ao lado a lado da Guiné-Bissau na proteção do ambiente e na conservação da extraordinária biodiversidade deste país, dos mangais e ecossistemas costeiros às florestas, rios e áreas protegidas que são o sustento de tantas comunidades.
Quero aqui reconhecer um dos nossos parceiros fundamentais neste caminho, o IBAP, que no ano passado festejou 20 anos – um outro aniversario importante a marcar nesta festa. Estou orgulhoso por União Europeia ter estado ao lado do IBAP desde a sua criação, e aproveito esta oportunidade para felicitar o IBAP e todo o povo da Guiné-Bissau pelo reconhecimento altamente merecido das ilhas BIJAGOS como património da humanidade no ano passado.
Aproveito desta ocasião para prestar homenagem também a todos aqueles e aquelas que ousaram sonhar e avançar com este processo. Entre outros, Tiniguena presente na região há quase 30 anos, engajada através dos seus projetos na promoção do uso sustentável dos espaços e recursos naturais e culturais gerido pelas próprias comunidades.
 

Nos direitos humanos e na boa governação, trabalhamos com as instituições públicas, a sociedade civil e as organizações de base comunitária para promover e proteger todos os direitos humanos. Insisto no “todos” porque, para além dos direitos civis e políticos clássicos, a sociedade civil guineense conseguiu pôr na agenda pública a proteção dos direitos económicos, sociais e culturais.
Trabalhamos junto das comunidades e com as organizações da sociedade civil para acabar com as práticas nefastas e permitir que as meninas frequentem a escola, porque todas as meninas merecem um futuro melhor. Agradeço muito o CNAPN pelo extraordinário trabalho conjunto e quero mencionar o projeto “Born Perfect”: uma Caravana de Mulheres contando com músicas, líderes religiosas, médicas, políticas, exibições de filmes ao vivo e cantoras, que teve um grande impacto.
Destaco o papel da Liga Guineense dos Direitos Humanos, em particular das suas delegações regionais, que têm estado sempre ao lado das populações, alertando o Estado e parceiros para situações por vezes dramáticas.
 

Na área da justiça, destaco a parceria com o PNUD para promover o acesso à Justiça: uma justiça mais perto dos cidadãos vai certamente contribuir para a proteção dos direitos dos cidadãos e reforçar a coesão social.
Temos uma parceria de longa data com os jornalistas, em particular com o seu sindicato, para combater a desinformação e o discurso de ódio na Guiné-Bissau. Acreditamos que reforçar a liberdade de expressão e opinião, bem como a qualidade da imprensa é condição necessária para a vida em sociedade.
 

A promoção da igualdade de género e o empoderamento das mulheres ocupam um lugar transversal em todos os nossos programas e projetos e procuramos concretizá-los em todas as áreas da nossa cooperação, da educação à saúde, da agricultura ao empreendedorismo. Promovemos o acesso das
raparigas à educação, a participação das mulheres na vida económica e pública, a sua proteção contra todas as formas de violência e discriminação e a criação de mais oportunidades para que mulheres e jovens raparigas possam desenvolver plenamente o seu potencial. Porque nenhuma sociedade pode alcançar um desenvolvimento justo e sustentável deixando metade da sua população para trás.
Mas a promoção da igualdade não se limita às questões de género; abrange todas as formas de discriminação. Adotámos transversalmente o princípio de não deixar ninguém para trás e temos trabalhado com as associações de pessoas com deficiência, e outras organizações que trabalham em prol da igualdade para nos assegurarmos de que os nossos programas incluem medidas concretas para promover a participação de todos. Trabalhamos no largo das ultimas décadas com a CNE e a sociedade civil para desenvolver uma estratégia de género e inclusão, e – também com a Célula de Monitorização eleitoral e a WANEP regional - implementar medidas concretas para aumentar a participação dos grupos mais vulneráveis no ciclo eleitoral.
Na cultura e no património, destacamos intervenções em Bolama — onde a preservação da arquitetura e a valorização do património são instrumentos para o desenvolvimento turístico e cultural — e o apoio ao Museu da Escravatura em Cacheu, que torna inesquecível uma história que não pode ser silenciada. Apoiámos também a Bienal MoAC Biss que trouxe à Guiné-Bissau. Aproveito para cumprimentar e agradecer todos os nossos parceiros nesse setor, inclusos o Centro Cultural Português Camões, o Centro Cultural Franco-Guineense, UR-Gente, a Associação Pró-Bolama, a Acão para o Desenvolvimento, entre outros.
 

Excelências
Minhas senhoras e meus senhores,


Nada disto é feito pela União Europeia isoladamente. Adotámos uma abordagem de Equipa Europa. Estados-Membros, Banco Europeu de Investimento, Agências de cooperação dos Estados Membros da União Europeia, Parceiros multilaterais. Esta capacidade de trabalhar em conjunto permite
mobilizar conhecimento, financiamento e experiência ao serviço das prioridades definidas pela própria Guiné-Bissau.
Muitos destes projetos são desenvolvidos com a União Africana, com a CEDEAO, com as agências das Nações Unidas, com as ONGs internacionais, parceiros indispensáveis, muitos dos quais estão presentes aqui esta noite. Cumprimento-os e agradeço-lhes a excelente cooperação.
Dentro de instantes, um breve vídeo dará imagem ao que as palavras nem sempre conseguem transmitir: o alcance e ambição desta parceira; o impacto dos nossos programas e a centralidade da nossa cooperação que superou os 700 Milhões de euros em 50 anos.

Mas permitam-me sonhar o futuro.

Um futuro no qual a lei do mais forte não a prevalece a nível internacional. Um futuro de paz e cooperação. De diálogo, respeito, igualdade e desenvolvimento sustentável.
Aqui na Guiné-Bissau, a União Europeia, em diálogo construtivo com as autoridades nacionais, as Nações Unidas, a União Africana e a CEDEAO, expressa a sua esperança num rápido retorno à ordem constitucional. E também um futuro sem violência, onde todos os direitos, de todos, são respeitados.
Ao olharmos para o futuro, temos diante de nós uma oportunidade histórica: projectar os próximos cinquenta anos de cooperação numa base renovada.
Tal como todos os guineenses, queremos uma Guiné-Bissau
Com instituições resilientes, em que a governação nacional e local seja transparente e participativa.
Com infraestruturas modernas, cidades mais verdes, uma economia diversificada e sustentável,
Jovens formados com um emprego digno, mulheres com oportunidades iguais e livres da violência de género,
Uma agricultura e uma pesca que respeitem o ambiente e valorizem as comunidades locais, e 

Um sector cultural capaz de transformar a memória em oportunidades económicas e sociais,
Queremos continuar a trabalhar convosco para que esta visão partilhada se torne realidade. E queremos trabalhar em parceria igualitária, queremos construir convosco o sonho dos nossos fundadores.
Antes de encerrar, permitam-me retomar a importância simbólica dos aniversários que hoje celebramos:
Os 50 anos de parceria entre a União Europeia e a Guiné-Bissau;
Os 50 anos de presença da UNICEF no país;
Os 40 anos do ingresso da Espanha e do Portugal na União Europeia
Os 10 anos do Museu da Escravatura em Cacheu;
e o ainda vivo centenário de Amílcar Cabral.
Estas datas convidam-nos a recordar o caminho percorrido e a renovar compromissos para os tempos vindouros. Em cada marco, está a prova de que a cooperação produz resultados concretos e duradouros quando é construída com confiança mútua e uma visão partilhada.
Uma palavra também de agradecimento
 

Aos embaixadores da Equipa Europa e a todo o corpo diplomático – obrigado pelo excelente trabalho conjunto, pela amizade e pelo verdadeiro “esprit de corps” demonstrado em mis primeiros 9 meses.

Aos nossos amigos guineenses – mais uma vez bem-vindos na vossa casa e obrigado para estos primeiros 50 anos de parceria.

A todos os que percorreram connosco este caminho ao longo destes 50 anos, mencionei algumas, mais temos muitíssimos mais e aproveito agora para agradecer todos, guiando-nos e amparando-nos para chegarmos até aqui.

Aos nossos patrocinadores, sponsor de esta festa: queremos agradecer de coração a Pasteleira do Bolo de Vivi, Fagoral, Sabores e MYA pela generosidade e pelo apoio à realização desta Festa da Europa. Graças a vossa contribuição, celebramos hoje a amizade, a cultura e os laços entre o povo europeu e o povo guineense – permitindo que esta iniciativa reúna
a comunidade e promova o diálogo e a cooperação. Muito obrigado por acreditarem neste projeto.

Um agradecimento especial ao coro da catedral pela interpretação tão vibrante do “Ode à Alegria” que nos encheu de emoção, e do hino da Guiné-Bissau.

Agradecemos também ao coro da escola Bengala Branca — que nos encantará em breve durante o cocktail — pela dedicação e talento.

Um reconhecimento caloroso aos artistas que estão - agora em vivo - a pintar o mural em memória dos 50 anos da parceria entre a União Europeia e a Guiné-Bissau junto à entrada do jardim: se ainda não os viram, por favor aproximem-se e apreciem o seu trabalho.

Aos membros da minha equipa, em particular os guineenses, que trabalham incansavelmente para concretizar o futuro e, ainda assim, tiveram tempo para organizar esta festa: obrigado pela vossa dedicação, compromisso e motivação. A nossa equipa da Delegação, junta com as Embaixadas dos Estados membros da UE é a prova de que, Unidos na Diversidade, somos mais fortes, como nos diz o lema da UE.
Obrigado, Merci, Grazie, Gracias, Thank you.
 

E finalmente, uma palavra aos tantos jovens que estão connosco esta noite:
Juventude di Nô Povo, nu ta odja pa frente ku speransa. Nu krê na bô força, bô kabesa i bô trabadju pa konstrui un Guiné-Bissau más forti, más justo i más prósperu. Nu Europa sta ku bôs pa caminhu; pa pròksimu 50 anu, empesa ku bô, nu ta trabalha pa oportunidade pa tudu jovem: estudu, trabadju, i respetu. Ka perde fé, sta juntu pa faze mudansa.
 

Excelências
Minhas senhoras e meus senhores,


Que a inspiração do 9 de maio nos acompanhe:
Que a memória nos ensine,
Que a parceria nos fortaleça e
Que o futuro nos encontre unidos, empenhados e esperançosos.
Que os próximos cinquenta anos sejam de prosperidade partilhada, paz consolidada e justiça social para todas e todos na Guiné-Bissau.


Viva a Guiné-Bissau!
Viva a União Europeia!
Viva a cooperação entre África e Europa!


Muito obrigado e Boa Festa da Europa a todas e todos