Opiniões divergentes sobre a guerra de agressão russa e reforço da nossa parceria com o Golfo

03.05.2022

Blogue do AR/VP — A invasão da Ucrânia pela Rússia tem vastas repercussões que se fazem sentir para além das fronteiras Europa. No último fim de semana desloquei-me ao Catar e ao Koweit para visitas bilaterais, para fazer uma intervenção durante o Fórum de Doa e para me encontrar com uma série de interlocutores internacionais. Bem presente na mente de todos estavam a guerra e as suas consequências. Precisamos de reforçar a nossa cooperação com os países do Golfo para podermos fazer face às repercussões deste conflito.

Pictoquote Gulf Blog Post

«Muitos países veem a agressão da Rússia contra a Ucrânia como apenas um dos muitos conflitos em todo o mundo que requerem atenção.» Josep Borrell

 

Apesar de terem passado apenas alguns meses desde a minha última visita ao Golfo, o mundo já não é o mesmo: o Presidente Putin fez estalar, na Europa, uma guerra numa escala e intensidade jamais vistas desde o final da Segunda Guerra Mundial. A invasão russa é um momento decisivo para o futuro da ordem internacional baseada nas regras, que determinará se o mundo em que vivemos será governado pelas regras ou controlado pela força.

O conflito na Ucrânia como «um de entre muitos»

Foram estes os principais temas que discuti, ao longo de toda a visita, com representantes do mundo árabe, do hemisfério sul e com outros participantes no Fórum de Doa. A intervenção virtual do presidente Zelensky difundida em direto durante a sessão de abertura marcou o tom do Fórum mas, no meu painel de debate e nas minhas reuniões com os dirigentes do Catar e do Koweit de outros países, apercebi-me de uma coisa: se bem que exista uma oposição comum de princípio contra a agressão da Rússia e o uso da força, a guerra na Ucrânia é, para muitos países, apenas um dos muitos conflitos em todo o mundo que requerem atenção. Contrariamente ao que acontece na Europa, a guerra faz parte do quotidiano de muitas pessoas em todo o mundo e, em especial, no Médio Oriente.

Para além disso, tomei consciência de diversas preocupações quanto ao facto de a reação da UE e das sanções que adotámos serem incapazes de alterar a estratégia do Presidente Putin e poderem prejudicar as economias de outros países e levar à criação de sistemas financeiros e cadeias de produção paralelos.

Uma vez que tanto a Rússia como a Ucrânia são importantes produtores de trigo (30 % das exportações mundiais), o ataque da Rússia contra a Ucrânia e a sua decisão de travar as exportações bloqueando o Mar Negro podem, efetivamente, gerar uma situação de insegurança alimentar suscetível de afetar a vida de milhões de pessoas e de criar instabilidade no Médio Oriente e em África. A UE está bem consciente destes riscos e está a estudar a melhor maneira de ajudar os países mais duramente atingidos.

A par de muitas preocupações justificadas, muitos países estão a adotar uma narrativa que acusa a Europa de dualidade de critérios, de estar demasiado centrada sobre as suas próprias necessidades e de não ter na devida conta consequências como o aumento dos preços dos produtos alimentares. E a Rússia, com a sua infernal máquina de mentiras e desinformação, está a tirar partido deste tipo de preocupações e de antigos discursos anticolonialistas para tentar acusar a UE ou o «Ocidente».

 

«É a Rússia que está na origem do enorme sofrimento humano, da insegurança alimentar, do aumento dos preços de vários produtos de base e das perturbações das cadeias de abastecimento.»

 

Para combater esta situação, precisamos, em primeiro lugar, de explicar o que está realmente a acontecer no terreno e quem está a causar estes enormes danos à Ucrânia e ao mundo inteiro. Foi a Rússia que atacou a Ucrânia, no mais total desrespeito pelas regras da política internacional e pela Carta das Nações Unidas. É a Rússia que está a causar um enorme sofrimento humano na Ucrânia e que fez com que 3,7 milhões de pessoas - número que aumenta diariamente - tenham fugido da violência. O modelo da intervenção militar da Rússia na Ucrânia, incluindo os ataques deliberados contra infraestruturas civis é, tragicamente, semelhante à abordagem que adotou durante a última década na Síria e que provocou níveis de sofrimento igualmente dramáticos. É evidente que é a guerra da Rússia contra um país soberano que não representava qualquer ameaça que está na origem da insegurança alimentar, do aumento dos preços de vários outros produtos de base e das perturbações das cadeias de abastecimento.

Se considerarmos todos estes factos, torna-se evidente que a atual crise não tem que ver com um confronto entre o «Leste e o Ocidente» ou com um conflito de pouca importância para o «hemisfério sul». A guerra contra a Ucrânia não é apenas uma questão europeia ou ocidental, é uma ameaça que põe em perigo o mundo inteiro. Tal como afirmei durante a sessão do Fórum de Doha, esta guerra tenta legitimar o princípio da «lei do mais forte» e as suas repercussões far-se-ão sentir muito para além da Ucrânia e da Europa, e nomeadamente nos países vulneráveis do Médio Oriente e de África.

 

A guerra contra a Ucrânia não é apenas uma questão europeia ou ocidental. É uma ameaça que põe em perigo o mundo inteiro.»

 

Expliquei aos meus vários interlocutores que, desde a sua criação, a UE sempre defendeu o conceito de um mundo em que o direito internacional é respeitado, onde não há margem para guerras e onde os conflitos são resolvidos através do diálogo e de negociações. Sempre tentámos resolver todos os conflitos — seja na Palestina, na Síria, no Iémen ou no Iraque — e afetámos importantes recursos para aliviar o sofrimento da população civil. E isto já muito antes de a guerra estar diante da nossa porta. Prosseguiremos os nossos esforços para defender a Carta das Nações Unidas e a ordem internacional assente em regras. A UE está a envidar esforços para assegurar a mais ampla condenação possível da Rússia e o seu isolamento a nível internacional. Queremos colaborar de perto com os países do Médio Oriente e do Golfo para convencer a Rússia a pôr termo a esta guerra absurda. Neste contexto, congratulamo-nos com o facto de a maioria dos países do Golfo e árabes apoiarem os nossos esforços e terem votado a favor das duas recentes resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas que condenam a agressão da Rússia.

Parceria UE-Golfo

No entanto, não é simplesmente devido às ações precipitadas do Presidente Putin que estamos tão interessados em reforçar a nossa parceria estratégica com o Golfo. Em fevereiro deste ano, em Bruxelas, a UE já havia discutido com os ministros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) a possibilidade de estabelecer objetivos mais ambiciosos para a nossa cooperação e, durante a minha missão, continuei a avançar com o diálogo em matéria de energia e a transição ecológica, segurança regional, comércio mundial e segurança e proteção das rotas comerciais mais importantes.

Um dos principais desafios tem, obviamente, que ver com a segurança energética e a aceleração da transição ecológica. Durante as nossas reuniões, tanto o Emir Tamim bin Hamad Al Thani como o primeiro ministro adjunto/ministro dos negócios estrangeiros Sheikh bin Abdulrahman Al Than confirmaram o interesse do Catar em desenvolver uma parceria estratégica de longo prazo em matéria de energia com a UE. Muito embora, a curto prazo, a sua capacidade para fornecer mais GNL à Europa seja limitada, estou confiante de que o Catar está disposto a reservar uma maior produção para a UE a partir de 2025, o que poderá vir a constituir um importante elemento da nossa estratégia energética, Estratégia da REPowerEU tanto em termos de diversificação das fontes de abastecimento de gás como do fornecimento de outros tipos de energia como o hidrogénio verde e outras fontes de energia renováveis.

 

«A nossa parceria com o Golfo está centrada na energia e na transição ecológica, na segurança regional, no comércio mundial e na segurança e proteção das rotas comerciais».

 

Durante as conversações com o príncipe herdeiro do Koweit Kuwaiti Sheikh Meshal Al-Jaber Al-Sabah, o primeiro-ministro Sheikh Sabah Al-Khalid Al-Sabah e o ministro dos Negócios Estrangeiros Ahmed Nasser Al-Sabah foi igualmente feita referência ao importante papel do Koweit no que respeita à estabilização do mercado internacional do petróleo.

Na realidade, a UE e o Golfo são parceiros naturais quando se trata de promover o desanuviamento, o diálogo e o reforço da confiança. Um aspeto essencial neste contexto é, por exemplo, a segurança marítima em torno do estreito de Ormuz ou do mar Vermelho e os esforços realizados para melhorar o conhecimento da situação e os mecanismos de intercâmbio de informações com todos os vizinhos na região do Golfo. Em fevereiro de 2022, a UE lançou uma nova presença marítima comum europeia no Noroeste do Oceano Índico, que abrange os mares que se estendem do oceano da Índia ao Corno de África e o estreito de Ormuz. No que diz respeito à segurança regional, informei os meus interlocutores sobre a fase em que se encontram as conversações sobre o acordo nuclear com o Irão, e dialoguei sobre a situação no Afeganistão, onde os nossos parceiros do Catar desempenharam e continuam a desempenhar um papel fundamental, facilitando os contactos com as autoridades talibãs de facto, prestando apoio às operações de evacuação e ajudando a UE a restabelecer a sua presença em Cabul após o golpe de Estado talibã.

Os meus interlocutores falaram-me também muitas vezes das ambiciosas medidas que, à semelhança de outros países da região, os líderes do Catar e do Koweit adotaram a fim de concretizar as suas «Visões» para as mudanças sociais e económicas nos respetivos países que, em muitos aspetos, coincidem com as ideias da UE para o futuro da nossa parceria.

 

«Apesar de nem sempre estarem de acordo sobre tudo e de existirem divergências no que toca a certos temas, a UE e os países do Golfo têm muitos objetivos comuns e interesses recíprocos.»

 

Como é óbvio, nem sempre estamos de acordo sobre tudo e existem divergências, sobretudo no que diz respeito aos direitos humanos, por exemplo. No entanto, regressei da minha missão convencido de que a UE e os países do Golfo partilham muitos objetivos comuns e interesses recíprocos no que respeita às questões globais fundamentais e que devemos aprofundar a nossa parceria para podermos contribuir para a responsabilização e a estabilidade a nível mundial. Com base nos debates do Conselho Ministerial UE-CCG de fevereiro, avançaremos com este objetivo e concretizaremos as nossas ambições numa «comunicação conjunta» sobre a parceria com o Golfo, que a UE tenciona adotar nas próximas semanas.